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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Meu analista é o cobrador de ônibus.

Olhando pela janela me pergunto se deveria estar olhando para dentro; olho para ti, me perguntando se deveria estar olhando para mim mesma. E chego à conclusão de que a vida é como um transporte público, onde é colocado lá um montante de gente aleatoriamente (des)conhecida, na hora de pique depois de um trabalho cansativo, esperando por um assento vazio, uma notícia, uma oportunidade de escaldar os pés cascudos e repousar a cabeça branca no colo de uma bela moça.

Olho pela janela e noto que são quase sete horas e meus pés doem.
É quase sexta e não finalizei o que deveria ter finalizado.
É novembro e lembro-me do que não me lembrei de fazer.
Tenho quase 20 e não sei o que vou fazer da vida.
Tenho quase 30 e não sei se quero constituir família.
São sete horas de uma quinta-feira de novembro, tenho quase vinte, estou sentada em uma condução e nem sei em qual ponto devo desembarcar.
Estou desacreditada, desamada e não sei quem devo afogar. 
Estou olhando pra fora querendo olhar para dentro. 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O celular chamado está fora da área de cobertura ou desligado.

Ela liga pra ele três vezes ao dia pra dizer que foi engano. 
Duas vezes, destas três vezes, muitas vezes, são pra escutá-lo xingar porque a outra pessoa só fica ali, quieta, não responde nada. Ela liga pra ele, pra escutar a amante atender e chorar que nem uma condenada. Ela liga pra ele, para ver se ele acha que é ela.
Ela liga pra ele pra sentir coragem de marcar um encontro e finalmente conhecê-lo. 
Ela liga pra ele, para ver se consegue se apaixonar por alguém desconhecido.
Ela liga pra ele:
- Alô? 
- Oi...

domingo, 13 de outubro de 2013

Não me venha com teorias, só dance.

Eu queimei os camarões amor, teu coração também. Tu fingias que falava francês. 
Eu queimei o arroz. E tu fingias que sabia dançar.

Não foi nossa culpa, espero que isso esteja claro, mas desculpa meu descuido, minha falta de atenção para contigo; eu já não posso seguir ao teu lado, - seja de qual lado for. Eu destruí o nosso almoço, nosso lanche e nossa jantinha. Larguei a panela em carvão e deixei para que lavasse. 
Fui embora de uma vez por todas.
Aos nossos pés mais uma vez, o tão superestimado ser “nós dois”, morre aqui. E os camarões que compramos juntos, no supermercado pela tarde de sábado, morreram por nós também.